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Shtisel

shtisel

Série de Ori Elon e Yehonatan Indursky – Israel – duas temporadas 2013, 2015.

Shtisel é um restaurante no bairro Geula, em Jerusalém. Nele encontraram-se os roteiristas Ori Elon e Yehonatan Indursky para discutirem seu novo projeto. Saíram da reunião com várias ideias e uma única decisão. O nome da nova série de TV seria Shtisel, como o restaurante. A comida, pelo jeito, estava inspiradora.

Na série, Shtisel não é um restaurante e sim uma família. Uma família como todas, com as preocupações e os dramas da maioria das famílias, porém com algo diferente. Os Shtisel são judeus ortodoxos, aqueles de barbas longas e casacos pretos cobrindo os homens, de perucas e lenços cobrindo as mulheres. Eles moram no Geula (do hebraico, salvação ou redenção),  bairro de judeus ortodoxos que ao leste tem como vizinho Mea Shearim – bairro mais ortodoxo ainda – e ao sul, o centro da cidade, moderno e cosmopolita. A sonoridade de Shtisel é muito Idish (idioma dos judeus do centro e leste da Europa, berço dos movimentos judaico-ortodoxos) e lembra também Shteitel. O bairro Geula assemelha-se realmente a um shteitel –uma aldeia judaica na Europa do século 18 ou 19 – encravada no meio de uma cidade do Oriente Médio do século XXI. Por isso Sthisel parece, em muitos momentos, uma série de época, com vislumbres de modernidade que a invadem de repente, para lembrar-nos que é contemporânea.

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Michael Aloni e Hadas Yaron como os primos Akiva e Libbi

O contato inevitável entre os mundos secular e religioso, tão próximos geograficamente e de uma distância abismal, é um dos aspectos interessantes da série. A vocação de Akiva, o caçula dos Shtisel, para o desenho acaba sendo o carro condutor desse contato e um dos elementos de conflito da família. Outro tema abordado pela série, entre as linhas das tramas e dramas familiares, é o do individuo frente à coletividade. No bairro pequeno de uma comunidade altamente regrada e aparentemente uniforme parece não haver espaço para o pessoal. A série mostra o oposto: a individualidade existe, se expressa e convive no meio da comunidade uniformizada e, por vezes, se choca com ela.

Shtisel não é, no entanto, sobre o choque entre o individuo e o coletivo ou entre religiosos e não religiosos. Ao contrário, a série atua como uma ponte ao tratar com delicadeza as intricadas relações familiares e mostrar que, independente do contexto, do cenário ou matriz cultural, há questões que tocam a todos os seres humanos. Os judeus ortodoxos, muitas vezes vistos como fanáticos pela maioria secular, são retratados com muita sensibilidade, amor e compreensão pelos personagens de Shtisel. E com um ingrediente que não poderia faltar na cozinha judaica: uma fina dose de humor.

As duas temporadas da série foram produzidas pelo canal Yes e licenciadas para a Netflix.

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901

 

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Uma tarde abafada no centro de Porto Alegre. Um encontro casual no corredor de um prédio antigo. Um convite, uma intimação?  Um elevador que rasteja até o nono andar. Uma porta que se abre. Uma experiência, uma aventura inesquecível. Ou um desencontro?

LES AMANTS
O quadro Os Amantes de René Magritte

No sábado, dia 15/12, foi lançado o meu novo livro 901. Para não cometer o crime de spoiler, pouco posso adiantar além da sinopse na contra capa. Posso dizer que o livro é dividido em quatro movimentos: Presto Agitato, Moderato Intermezzo, Allegro e Adágio. Os nomes refletem a intensidade de cada momento, e fazem, também, uma referência ao universo musical, já que o livro tem a forma de um dueto, no qual os parágrafos se alternam como as vozes dos protagonistas. Essa partitura é recheada com uma boa dose de erotismo, componente essencial na natureza dos relacionamentos, tema de 901. Reproduzo o texto da orelha de capa escrito por quem se tornou um mito (este verdadeiro) nesse tema tão complexo e muito nos honrou com a sua apresentação.

“Com imenso prazer participei dessa grande aventura no 901. E prazer, vocês sabem, é o grande barato da vida. Minha participação se deu, como sempre, nos bastidores e muito me honra ser convidado a assinar esse texto de orelha. Quantas obras da literatura, teatro, cinema, música não exploram meu trabalho e nem mesmo fazem uma menção honrosa? Já das artes plásticas, não tenho do que me queixar. Mas não é por isso que gosto tanto desse romance, não me confundam com Narciso. Na verdade, adoro atuar por trás da ribalta, fora do alcance dos holofotes. O que me atraiu no 901 foi a complexidade da missão. Vocês sabem, existe uma corrente “científica” que reduz todo o sentimento de atração, todos os rituais de sedução à uma explicação simplista: o instinto de preservação da espécie. Obviamente essa tese me arranca risos, mas alguns humanos a levam muito a sério, como levam a sério a falácia de que o ser humano é um animal racional. Ora, vocês acreditam em tudo. De manhã juram que a terra é plana, ao meio dia já declaram que ela é redonda. Compram um ingresso  para o cinema e por uma hora e meia creem piamente na ficção que pagaram para assistir. Abrem as páginas de um romance e a racionalidade sai de férias, enquanto se envolvem com os dramas de heroínas e vilões. Na verdade, essa é a grande qualidade de vocês, queridos mortais, a facilidade de se envolverem emocionalmente.

E o romance 901 trata exatamente disso: do peculiar instante do envolvimento — da minha força e do quanto o meu trabalho é muito mais complexo do que simplesmente retesar um arco e disparar um par de flechas.”  Eros, filho de Afrodite.

A bela capa é obra de Flávio Wild.

O e-book está disponível na Amazon Brasil no link abaixo, e também em todas as lojas da Amazon pelo mundo. Para o livro físico, faça contato pelo blogdolerner@gmail.com.

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O Fazedor da Utopia – booktrailer

Booktrailer?!?!? Para mim, trailer sempre foi coisa de filme, ou de seriado, um meio audiovisual para promover uma obra audiovisual. Para divulgar um livro havia a sinopse e a capa. Os tempos mudaram e assim como o videoclip se tornou essencial para os músicos, desde os anos 1980, hoje parece essencial ter um vídeo para atrair as pessoas a ler um livro. É uma ferramenta importante, assim me informam, ainda mais no caso de um livro em formato digital e independente. O Fazedor da Utopia, que está em quarto lugar na lista dos mais vendidos da Amazon, em literatura de ficção política, ganhou portanto um trailer.

Parece um pouco paradoxal. No meu entender, o fato de não haver imagens em um romance sempre foi um grande atributo, exclusivo da literatura e da poesia, pois pelas palavras do autor, o leitor constrói seu próprio imaginário: visualiza os cenários, os personagens, concebe suas qualidades, sente seus odores e escuta os tons de voz sugeridos pelo texto, porém captados e processados de forma individual. Eu diria que, lendo um bom texto, cada leitor faz seu próprio filme, ou fabrica um sonho em vigília, já que além de imagem e sons, as letras provocam outras sensações e estados de consciência.

Neste caso, como usar o vídeo? De que maneira articular as imagens para criar uma atmosfera que tenha a ver com o romance, sem dar nomes aos bois e caras às vacas? Esse passou a ser o desafio. A outra dificuldade foi a produção dessas imagens. Ao montar um trailer se usa cenas do próprio filme, há que selecioná-las e editá-las em uma narrativa própria, porém não é necessário filmá-las. No caso de um livro as imagens e sons inexistem e produzi-las envolve um alto custo. A solução para os dois desafios acabou sendo uma: trabalhar com imagens documentais. Como O Fazedor da Utopia é um romance de fundo político e seu universo é a cidade, as imagens documentais pareciam perfeitas para casar com os trechos selecionados, passando o conceito e a atmosfera do livro, sem interferir no processo imaginário do futuro leitor. Boa parte dessas imagens foi escolhida de dois filmes de minha autoria, Referendo e Dyonélio. Outras imagens foram gravadas durante as várias manifestações que ocorreram nos últimos tempos nas ruas de Porto Alegre.

O conceito parecia interessante, porém era necessário um editor criativo para fazê-lo funcionar na prática. Conversei com meu amigo Alfredo Barros, grande editor, e ele me apresentou seu aluno, Daniel Deitos de Moraes, aficionado em trailers, que montava peças imaginárias de filmes inexistentes, por puro prazer. Daniel trouxe ao trabalho uma criatividade peculiar. Seu olhar aproximou ainda mais a relação entre imagem e texto de uma abordagem poética e sensorial.  Alfredo ajudou-o nos aspectos técnicos, como conversão e importação de formatos. Deborah Finocchiaro é a voz do romance, atriz que sabe colocar, como poucos, vida na leitura de um texto tanto no teatro, no cinema e também na literatura. A trilha é obra do talentoso Renan Franzen, com quem trabalhei recentemente, na mais fina sintonia, em Caixa Preta.

O resultado está aí para a sua apreciação. Se quiser deixar um comentário, indicando o quanto o trailer provoca o interesse em ler o livro, ou qualquer outra observação, agradeço.

Para ler uma amostra ou adquirir o Fazedor da Utopia;

Culpa

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Filme de Gustav Möler – Dinamarca – 2018.

O primeiro longa-metragem de um diretor é, normalmente, um filme de orçamento modesto. O cineasta estreante precisa vencer a sua inexperiência e, principalmente, o desafio de  filmar barato para mostrar que o sangue pulsa em suas veias em 24 quadros por segundo. Gustav Möler, em Culpa, soube extrair o máximo dessa condição mínima ao construir um filme denso e tenso, trabalhando em um único cenário, com um único protagonista. Usou a máxima dos filmes B de terror dos anos 1950: se você não tem verba para criar um monstro apavorante, oculte-o, deixe a imaginação do espectador criar a imagem. Nada pode ser mais aterrador do que o monstro particular de cada um. Ridley Scott, embora não estivesse dirigindo um filme B, muito menos sem verba, explorou magistralmente essa ideia em Allien, o Oitavo Passageiro.

Culpa não é, no entanto, um filme de terror. É um drama e um thriller policial. O monstro que Gustav oculta de nossos olhos é o sequestro da mãe de duas crianças,  a busca e perseguição do veículo que a leva. Esta ação é meticulosamente construída através do som, que nos chega pelo telefone de emergência da polícia de Copenhague. Quem atende esses telefonemas é o policial Holm. Ao longo de todo o filme permanecemos com ele, na pequena central de chamadas, tensos e impotentes. Ele, por não poder envolver-se diretamente na ação, nós, por não podermos ver o que está acontecendo.  O sequestro, porém, é apenas um dos elementos do enredo. Holm não trabalha regularmente na central de emergência. Ele está ali de “castigo”, ou em uma espécie de suspensão, enquanto é investigado por um caso de má conduta policial. Esse subplot paralelo contraria as leis geométricas ao chocar-se em vários momentos com o plot principal.   Assim, junta-se ao trabalho magistral de desenho de som que oculta/revela a ação dramática um roteiro inteligente que expõe fragmentos do drama pessoal de Holm, drama que interfere no sequestro que ele tenta resolver, quebrando, inclusive, protocolos. A performance do ator Jakob Cedergren completa o triângulo (som, roteiro e interpretação) que o diretor, em sua estreia, toca como se fosse um Stradivarius. Não apenas nos mantém cativos com o suspense e um enredo cheio de viradas, como nos faz cair na cilada de nossos pré e pós-conceitos.

Culpa foi indicado pela Dinamarca para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Chegou à lista dos nove pré-finalistas, mas não alcançou ficar entre os cinco nominados. Gustav Möler marca, com seu filme de estreia, o início de uma carreira promissora.

Cafarnaum

 

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Filme de Nadine Labaki – Líbano – 2018.

“A arte é roubo, a arte é assalto à mão armada, a arte não é agradar a sua mãe” – Sylvia Plath.

Cafarnaum é daqueles filmes que te deixa aturdido, como um assalto sofrido em uma esquina escura. Os créditos finais rolam na tela, espectadores igualmente desconcertados se movimentam em direção à saída, tu fica meio sem saber que rumo tomar, enquanto tenta absorver o que viu.

O que se vê no filme, terceiro longa da diretora Nadine Labaki, é uma junção de fábula com realidade mundo cão, cenário da jornada do menino Zain, da imigrante africana Rahil e de outros tantos seres invisíveis, que orbitam nas ruas da metrópole. O elemento fabuloso encontra-se principalmente no argumento, no ponto de partida. Zain, preso em uma instituição para menores, volta ao tribunal que o condenou, agora como denunciante. Quer processar seus pais por terem-no colocado no mundo. Simbolicamente, o processo é um dedo acusador apontado para a sociedade, para instituições como governo e família, que existem, supostamente, para nos proteger. Um julgamento de uma civilização na qual só é gente quem tem um documento para comprová-lo.

O mundo cão em que Zain circula tem vários estágios, ou vários círculos infernais. Quando parece que se chegou ao fundo, descobre-se que há ainda para onde descer. É o que o garoto descobre quando foge de casa – um cortiço caindo aos pedaços – para cair na favela de barracos de zinco, depois nas ruas e, por fim, na prisão.

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Nadine filma essa descida ao Hades com a mão segura de uma virtuose. Planos aéreos em plongée desenham por vielas e favelas a arquitetura da miséria inserida na vida da cidade. Uma câmera viva, nervosa, sempre a caça do personagem, acompanha Zain nas ruas, expressando nos movimentos frenéticos a insegurança e o caos. No tribunal reina a gramática sóbria dos planos fixos e enquadramentos fechados nos rostos dos personagens.

Os personagens são o ponto alto da obra. O elenco foi selecionado a dedo nas ruas mais perigosas de Beirute entre favelados, refugiados e imigrantes ilegais. Não há, praticamente, atores profissionais. Zain é, na vida real, Zain Al Rafeea,  um refugiado sírio que vive há 8 anos no Líbano. Tem o corpo franzino, a tristeza nos olhos, a fragilidade da infância e a sabedoria das ruas marcadas em cada gesto e em cada expressão. Rahil é Yordanos Shiferaw, uma imigrante ilegal, no filme e na realidade. O elenco não precisa de pesquisa profunda para “incorporar” os personagens, mas isso não diminui o desafio da direção. Há um intricado trabalho a ser feito para transpor toda essa bagagem de vida para a tela, o que Nadine e sua equipe executam, mais uma vez, como virtuosismo. O resultado é uma autenticidade, uma verdade que lembram os brasileiros Pixote e Cidade de Deus, na beleza e na dor.

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Nadine Labaki e Zain, um trabalho intricado.

Cafar Naum, uma aldeia de pescadores, foi marcada pela passagem de Jesus quando andou pela Galileia.  Mais tarde foi amaldiçoada por Cristo pela falta de fé. Virou uma expressão para designar um lugar caótico. Beirute, no filme, é a Cafar Naum do século XXI, mas poderia ser qualquer outra grande cidade em qualquer outro país.

O filme foi laureado com o Prêmio do Juri no Festival de Cannes de 2018 e foi indicado pelo Líbano como seu representante ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2019. No ano passado, o pequeno país surpreendeu ao ficar entre os cinco indicados com o impactante Insulto. Um ano depois Cafarnaum pede passagem. O Líbano, conhecido outrora pelos longos anos de guerra civil, começa a chamar atenção pela sua cinematografia.

Casa do Baralho, temporada 2 Episódio de hoje: Robô Ou Não Robô?

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Advertência: essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos, pessoas e situações reais é de responsabilidade do próprio leitor. Qualquer parecença com outras séries, no nome ou no conteúdo, é pura ilusão.

O verão de 2019 caiu como uma brasa sobre o Brasil, elevando a temperatura a níveis insuportáveis. A cúpula do novo governo não aguentou o calor e se mandou para Davos, inclusive o chanceler que jura de pé junto que o aquecimento global não existe.

Antes da viagem, logo após a sua posse, o Presidente B encontrou-se com o Primeiro-Ministro B, chefe do governo israelense e seu mais novo melhor amigo. Os dois trataram de negócios bibilaterais. B deve enfrentar eleições em abril, em um clima desfavorável, pois está sendo investigado por… corrupção. Pediu ao seu amigo, o presidente B, que saiu vitorioso da recente campanha, uma força: ceder-lhe alguns milhares de seguidores e robôs nas redes sociais. B ficou feliz em poder ajudar. Os empresários que pagavam as contas de seus robôs já queriam desativá-los. Ele, em vez disso, poderia passá-los a B, por uma bagatela, praticamente a preço de custo. B perguntou o valor e levou um susto.

— Isso é uma facada — exclamou.

— Imagina! Uma facada custa bem mais caro. Mas vale a pena. Garante a eleição.

Após curta negociação chegaram a um acordo, que gerou o fenômeno curiosíssimo, apurado pela imprensa israelense, de que a maioria dos seguidores do Primeiro-Ministro de Israel é do Brasil.

Essa questão robótica suscitou estranheza não apenas no médio oriente. Após o discurso do Presidente B em Davos surgiu a suspeita de que o pronunciamento não foi proferido por ele. Na véspera, houve um cancelamento, em cima da hora, da coletiva de imprensa. Isso causou frustração, porém não estranheza. Os repórteres brasileiros já sabiam que por recomendação médica, o mandatário da nação só concedia entrevistas a jornalistas amigos. Mas o discurso, no dia seguinte, foi tão curto, genérico e insonso que jogou nova luz (ou melhor, nova sombra) sobre o cancelamento da coletiva. Um dos jornalistas presentes, especialista em informática, focou na forma. A entonação e as pausas em conexão com o conteúdo não se coadunavam. Mandou analisar o vídeo do pronunciamento e, principalmente, as respostas de B às perguntas do Presidente do Fórum. O laboratório confirmou que o padrão  não era de um cérebro humano. O que nos leva à uma de duas conclusões: ou o presidente do Brasil é uma máquina, ou ele ficou incógnito em casa e mandaram, no lugar dele, um robô.

Por que B deixaria de viajar a evento tão importante? Por que ficaria, escondido, no abrasante calor de Brasília? Para responder a isso temos que deixar de lado, por um instante, o Bob pai e migrar para o Bob filho. Este tentava blindar a família Bolso do envolvimento aventado na investigação de lavagem de dinheiro por seu ex-assessor e motorista, quando era deputado estadual no Rio. O assessor investigado e o ex-deputado (atual senador) foram chamados para depor no Ministério Público, mas não compareceram. Em vez disso, concederam entrevistas para um canal de TV amigo. Inauguraram uma nova categoria: pessoas que ignoram a convocação para depor no MP e não sofrem consequência alguma. Pelo contrário, o Senador, mesmo não sendo objeto da investigação, conseguiu liminar no Supremo para suspendê-la, alegando foro privilegiado. Foi uma estratégia para ganhar tempo e possibilitar ao pai que viajasse tranquilo. Enquanto os Bolso comemoravam o sucesso da manobra, sentiram um tremor nos alicerces da casa. A alegação de foro privilegiado causou indignação e jogou o foco no Senador e na família. Vazou uma notícia de movimentação suspeita em sua conta bancária em 2017. Foram feitos, durante cinco dias entre junho e julho, 48 depósitos de dois mil reais cada, em dinheiro vivo. Dois mil reais é o limite para o banco não identificar a origem do depósito. É provável que Bob pai tenha ficado em casa para ajudar a apagar o incêndio. Após alguns dias, em um canal de TV amigo, o senador contou a seguinte história: recebeu os noventa e seis mil reais em dinheiro vivo da venda de um apartamento e foi depositá-los no caixa eletrônico, que só aceita o máximo de dois mil reais por envelope. Imagine o abnegado deputado, com uma mala de dinheiro no caixa eletrônico, depositando envelopes de dois mil reais a cada tantos minutos. Por que não depositou todo o valor em um caixa presencial, já que os depósitos foram feitos em horário bancário? Não explicou, mas também o jornalista não perguntou.

Assim, a dúvida despertada em relação ao Bob pai em Davos, robô ou não robô?, soa igual a pergunta que se faz na escaldante Brasília, em relação ao Bob filho: roubou ou não roubou?

Com as duas perguntas ecoando, novo abalo faz tremer o reduto dos Bolso. Uma ligação entre milicianos, os possíveis assassinos de Marielle e de seu motorista Anderson, e o gabinete do então deputado, Bob filho. Qual a natureza dessa ligação?

Não perca nos próximos episódios da nova temporada da Casa do Baralho.

Mad Men

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Série – criação de Matthew Weiner – EUA –  2007 a 2015.

Mad Men é sempre citada como um dos pilares da chamada era de ouro das séries de TV, que iniciou na última década do século passado e ganhou fôlego a partir do início dos anos 2000. Junto com a desbravadora Twin Peaks, do cineasta David Lynch, The Wire (A Escuta), A Família Soprano, A Sete Palmos, Carnivale, entre outras, Mad Men ajudou a revolucionar a narrativa seriada com tramas e personagens mais complexos, estéticas arrojadas, temas e abordagens  nada ortodoxos e a quebra de fórmulas e padrões só possíveis de atingir nos canais de TV a cabo (Twin Peaks e Lost na ABC foram a exceção que criaram a regra).  Esse salto de qualidade aliado a uma estagnação na criatividade dos filmes hollywoodianos atraiu profissionais que, em outras épocas, teriam ressalvas em trabalhar na TV e alçou a figura do criador ou showrunner ao status de uma função artística autoral.

As sete temporadas de Mad Men, com mais de noventa episódios, acompanham as peripécias de Don Draper, um criativo da Madison Avenue de Nova York (daí foi cunhado o trocadilho de Mad Men), na década de 1960, quando a publicidade consolidou mudanças de paradigmas na sociedade norte-americana (e, como consequência, na vida de todo o mundo ocidental) elevando os anúncios ao status de obras de arte e o consumismo ao status de religião. Com isso, enchiam-se os bolsos dos anunciantes e dos criadores/agenciadores que se consideravam deuses por tecer epifanias para vender biscoito. Don, interpretado por Jon Hamm, é um desses deuses. Sua aparência o torna irresistível para as mulheres, sua lábia o torna irresistível para os clientes, sua esposa o adora, seus filhos pequenos o veneram. Ele é o homem ideal, a encarnação do sonho americano. Em paralelo a essa exposição há uma contra-exposição que revela, aos poucos, que a imagem do protagonista é falsa, ou não totalmente verdadeira. Don não é Don, é Dick e ninguém além dele sabe disso. O segredo da identidade de Don é o conflito chave nas três primeiras temporadas. É o que mantém o espectador preso à tela. Don Draper é a criação e o criador, herói e anti-herói, é o protagonista e seu antagonista, personagem e conflito dramático. Ao seu lado circulam outros personagens instigantes, cujos arcos dramáticos em cada temporada e na série tecem uma evolução elaborada, como Peggy Olson, a secretária que virou diretora de criação.

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Peggy Olson (Elisabeth Moss) fincando bandeiras.

 

Além do universo da publicidade, a série retrata as mudanças políticas e comportamentais daquela década: os assassinatos dos irmãos Kennedy e de Martin Luther King, a chegada do homem à lua, a crise dos mísseis em Cuba e a guerra no Vietnam, que invadem os lares pela televisão. As pessoas bebem e fumam non stop, mas já há um início de intervenção do FDA em relação aos cigarros. As mulheres são tratadas como crianças quando o assunto é intelecto e como objetos quando se trata de sexo. Começam, no entanto, a fincar suas bandeiras de independência, como o faz Neil Amstrong na superfície lunar. Preconceitos étnicos arraigados sofrem os primeiros abalos com a presença de negros e judeus na Madison Avenue. A contracultura, principalmente através do movimento hippie, surge para questionar a religião do consumo, da apropriação e da guerra e acaba sendo apropriada pelos publicitários como isca para fisgar os mais jovens.

As três primeiras temporadas, que têm como conflito principal o mistério da identidade de Don, são geniais, justificando todos os elogios tecidos ao seriado. As demais temporadas perdem um pouco do brilho por tornarem os elementos das tramas repetitivos (casamentos, traições conjugais, divórcios, fusões e incorporações com outras agências, crescimento e crise nos negócios). Mantêm, no entanto, a qualidade na estética (encabeçada pela direção de arte) e no retrato da época. Cada episódio encerra com uma música que traz o espírito daqueles tempos. O último episódio resgata o brilhantismo do roteiro com um toque de gênio: um clipe que fecha a trama com chave de ouro – uma grande “epifania” de Don e de seu criador Matthew Weiner.

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O Método Kominsky

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Norman e Kominsky – Alan Arkin e Michael Douglas

Série – criação de Chuck Lorre – EUA – 2018.

Não me lembro de ter visto outra produção televisiva que logrou criar um humor tão sarcástico, ácido e, no entanto, não corrosivo.  Pelo contrário,  cada piada,  cada gag,  cada alfinetada e exposição, reforça a empatia que sentimos pelos personagens, apesar de suas fragilidades, anseios não realizados, sucessos e fracassos.  Essa façanha se revela ainda mais surpreendente pelo perfil do criador e um dos roteiristas da série. Chuck Lorre ganhou o apelido de Rei dos Sitcoms graças ao imenso sucesso de Two Men and a Half e The Big Bang Theory, séries de humor afiado, mordaz, calcado justamente na humilhação do outro.

O Método Kominsky não é um sitcom. Não é filmado com várias câmeras, não usa o recurso de gargalhadas gravadas para garantir o riso. A série tem 8 episódios curtos, em torno de 24 minutos, ritmo de produção adequado para trabalhar com qualidade a direção, o roteiro, os atores. Nela transitam personagens multidimensionais cujo comportamento e falas não são escritos exclusivamente em função das piadas. Lorre criou uma obra cômica para TV, mas bastante diferente do gênero que lhe rendeu a coroa. Para conseguir a rara aliança entre sarcasmo e enaltecimento, Lorre se volta à tradição judaica e evoca o humor de quem ri de si mesmo, não como uma forma de autodepreciação, mas como uma maneira de encarar verdades cruéis, evitando ser esmagado por elas.

A série aborda, sem condescendência, o delicado processo de envelhecer. Fala de luto, de perdas, da impotência e do medo frente à morte e, principalmente, de amizade – da qualidade única de uma amizade antiga, posta à prova dos anos e das intempéries. Cita dois filmes: Cocoon, que é justamente a antítese de O Método Kominsky, na visão e abordagem do tema, e Telma e Luise, que trata de amizade e traz uma cena final redentora, possível apenas no cinema, como bem sabem Kominsky e Norman.

A série reúne velhos atores, alguns esquecidos, outros nem tanto, alguns (conforme os preceitos do humor judaico) no papel de si mesmos, buscando voltar aos holofotes. Michael Douglas surpreende na interpretação de Kominsky – personagem que teve um início promissor como ator, depois virou preparador de elenco e por fim, ministra cursos de atuação. O trabalho de Alan Arkin como Norman é o ponto alto da série. Jay Leno, Patti Labelle, Elliott Gould (representando a si mesmos), Ann-Margret, Susan Sullivan, Danny DeVito, Ramon Hilario (o excelente garçom Alex) fazem parte do elenco estelar que já passou dos setenta.

O nome da série é referência a Stanislawski cujo método revolucionou a interpretação teatral e mais tarde o trabalho de ator frente às câmeras. O Método Kominsky faz uma homenagem debochada aos esforços de entender e sistematizar a arte, a criação e, em consequência, de tentar alcançar e classificar o sentido da vida. O método de Kominsky (para a arte e para a vida) é uma versão simplificada do cabedal de ensinamentos do teatrólogo russo: simples, divertida, mas sem deixar de lado a substância.

Ao final de cada episódio encontram-se de contrabando os cartões de vaidade de Chuck Lorre, um “assinatura” utilizada desde a época de seus sitcoms. Para vê-los (somente em inglês, não estão legendados) você tem que voltar aos créditos, assim que a Netflix os deixa em tela menor, e assisti-los até o final.

Amos Oz

Amos Oz

No apagar das luzes de 2018 faleceu o escritor Amos Oz. Apagar das luzes descreve bem a sensação que acompanhou a notícia de seu falecimento, em um ano no qual se acirram as intolerâncias e definham ainda mais os valores do iluminismo. O autor israelense mais conhecido fora de seu país e mais traduzido foi também uma rara voz de lucidez em um mundo que parece querer esquecer seus avanços e voltar a mergulhar em trevas. Foi um humanista como escritor e um ativista pela paz no oriente médio.

Amos nasceu em Jerusalém, em 1939, oito anos antes do nascedouro do Estado de Israel e no ano em que na Europa eclodiu o conflito que trouxe ao mundo o holocausto. Com nove anos, testemunhou a guerra da independência na qual Jerusalém foi sitiada e, após, dividida entre Israel e Jordânia. Em 1967, lutou como soldado na Guerra dos Seis Dias e em 1973 na Guerra de Iom Kipur. Oriundo de uma família de ativistas de direita, deixou sua casa com 14 anos e foi morar em um kibutz, assentamento de caráter socialista. Mudou seu sobrenome de Klausner para Oz (bravura, audácia em hebraico) e, entre os trabalhos agrícolas, descobriu sua vocação para as letras.

Amos é nome de profeta. Na bíblia os profetas foram uma espécie de autoridade moral, não oficial, que se insurgia contra os abusos praticados pelos poderosos. Na Israel de hoje, assim como em outras sociedades, os escritores parecem ter herdado essa vocação, junto com seu ofício artístico. Embora rejeitasse o rótulo, dizendo que na Terra Santa há profetas demais, Oz encarnou a vocação de forma séria. Em 1967, era dos poucos israelenses que falava em dois países para dois povos. Em 1978, foi um dos fundadores do movimento Paz Agora. Reconheceu que o movimento perdeu força após 2004, quando Israel desocupou unilateralmente a faixa de Gaza e teve como resposta a tomada do poder pelo Hamas e uma chuva de foguetes contra seu território. Mas nunca desanimou. Frequentemente sinalizava que as tragédias de palestinos e judeus tiveram sua  origem na Europa: a primeira no colonialismo europeu e a segunda no antissemitismo. Posicionou-se, sempre, como um socialista sionista, criticando a esquerda antissionista, que nega ao Estado de Israel o direito de existir.

“O Fanático é uma criatura bastante generosa. É um grande altruísta. Frequentemente, o fanático está mais interessado em você do que nele próprio. Ele quer salvar a sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto. O fanático importa-se muito com você, ele está sempre se atirando no seu pescoço, porque o ama de verdade, ou apertando sua garganta, caso você prove ser irrecuperável.”

Amos Oz deixa um legado de mais de quarenta obras entre contos, romances, ensaios e artigos. Entre as minhas favoritas está a magistral De Amor e de Trevas (autobiografia escrita como um romance), que é leitura obrigatória; Fima e A Caixa Preta, que recomendo com entusiasmo.  Vale também ler Contra O fanatismo coletânea que reúne artigos e palestras e da qual foi extraída a citação no parágrafo anterior. Amos, mesmo vivendo na cidade nos últimos anos, foi enterrado em Hulda, seu kibutz de origem.